São Paulo
Campo de Marte, Setembro de 2015
Por aqui é mais tarde que os relógios se atrasam.
De cimento e tijolos são os desejos dos que aqui habitam.
Melancolia matinal perpetuada. Medo de segunda-feira. Caminham cidadãos entre blocos da história esquecida.
Aqui rastejam crianças pelas ruas nuas em tardes quentes de um verão despido.
Sentimentos dourados se amarguram com pressa em frente a televisões modernas, inteligentes e deslumbrantes e que nunca se apagam antes das segundas-feiras.
Seguem em linha de produção acelerada os desejos mais infames. Os tais irrealizáveis.
Presença inóspita da insegurança e da permanência. Desejos perversos. Mundo atrás de mundos cobertos de estruturas de concreto.
Desperdício de areia. Justiça esquecida. Chama ilegal que murmura aos ouvidos dos novos habitantes. Faz relaxar. Faz lembrar que a esperança é esquecida antes mesmo do próximo episódio.
Sem pena do futuro, homens velhos e novos assistem previsíveis partidas de futebol.
Das colinas ao norte se deslocam ventos imaculados, desprovidos de
lembranças, críticos do futuro, descontentes com o presente.
Ao sul grandes lagoas de água podre exalam o perfume da história em fragrâncias excessivamente desencontradas. Servem a dois propósitos: matar a sede e esconder a merda, ao mesmo tempo, dos espectadores de novela, de notícias e de futebol.
Pela tarde cavalos adestrados correm com espadas em punho na direção dos paraplégicos que protestam por mobilidade nas avenidas de maior circulação, interrompendo os desejos e gerando incomensurável ansiedade.
No centro da cidade é uma bagunça. Há sempre essa angina, aquela angustia e toda a incerteza cabível aos que esperam dias melhores.
Ah, malditos sejam os castelos de argila cinza, as florestas adestradas e esse emaranhado de caminhos negros, a base de piche e brita.
À noite, nas bordas do aeroporto, grandes lagartos vagueiam entre jovens
travestis e velhas prostitutas. Enquanto máquinas voadoras superam altitudes calculadas lançando luzes para que sejam vistas entre nuvens, poeira e estrelas
distantes.
A cidade é a sala de ensaio dos Comedores de Perfume.
Uma velha escultura depredada.
A cidade é um rascunho do nosso futuro.
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