O Banquete do Tempo

(Ilhabela, agosto de 2020)

O tempo comeu o meu eu
Se serviu, cortou e mordeu
Cada dia um pedaço
Fez churrasco com a minha perna
Vinagrete com meu braço
Tentei impedí-lo, fazer um negócio
Propus um acerte
Mas ele se serve em banquete
Já compôs seu livro de receitas
Páginas já amareladas, cotrafeitas
O tempo me desjejua com contumácia
Vou para a tábua com suspicácia
Minhas orelhas vão para a chapa
De entrada, meus olhos mexidos
Minha atenção quase escapa
Da frigideira vejo seus atos remidos
Ano passado deu uma festa
Serviu tortilhas da minha testa
Convidou toda a sua gangue
Tinha Bloody Mary com meu sangue
Assou meus pés com batata
Um cozinheiro tecnocrata
Acordo todo dia em sua panela
Viro logo mingau com canela
Sou sempre o prato do dia
PF, rodizio e à la carte
Um menu feito com ousadia
Destarte, já prepara seu baluarte
Sua melhor sobremesa
Para o dia do meu enfarte.

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