Bunker

Quando late, Bunker sempre dá três latidos. Sempre em sequência e para. Depois volta, au-au-au. Eu não entendo este cachorro. Às vezes preferia não mais tê-lo. Mas confesso que nos meus piores momentos ele é meu melhor companheiro. Já nos melhores ele bem que me atrapalha na maioria das vezes. Sobretudo quando quero dormir – um dos meus momentos favoritos – e ele se põe a uivar na rádio-cão do bairro às três e quarenta e sete da manhã. Creio às vezes que ele se confunda com um galo, ou antes um lobo. Eu não sei. Pode ser mera coincidência. Ou mesmo que ele faça isso por determinação a prejudicar meu descanso. Mas o fato é que ele o faz. Percebo que se trata de uma rotina. Mesmo quando me dou ao direito ao sono da tarde, ele se põe aos uivos. Que são esses uivos? O que são esses gritos? O que os cães estão dizendo quando respondem a outro longínquo chamado? São de fato gritos da rouquidão que vão se tornando mais agudos e reparo um lamento nas últimas notas que desmaiam em uma súplica que me parece... saudades? E Bunker então aparece em minha vida para me lembrar da melancolia com seus gritos e me apoiar quando estou nela. Sou mais saudoso com ele por perto. E me basta finalizar lembrando que Bunker não pega e traz gravetos, não vem quando eu assobio, adora gatos e de uns tempos para cá passou a se alimentar de moscas e baratas com mais frequência. No todo ele me irrita e parece saber disso. Que seja, eu não me importo. Bunker é um bom companheiro.


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