A Travessia de Samara - [publicado na "FLI & São Sebastião Literária 2023"]

Publicado em 7/10/23 na "FLI&São Sebastião Literária 2023" em "Futuro e memória: escrevivências do Litoral Norte" - Org. Nagayama, Eda et al, 2023 / Editora Inteligência.

__________________________________

Naquela tarde Samara foi a última a embarcar na balsa. Ainda acomodava sua pesada mala quando os tripulantes deram a zarpada em direção à ilha, deixando para trás todo um continente. Os ventos vinham de leste trazendo perfumes dos mares abertos. Cativavam as palmeiras a se espreguiçarem de maneira diferente. O sol, estalado a meia altura, já rolava a noroeste. As cores do outono se debruçavam sobre a atmosfera em uma perspectiva mais âmbar. Sondavam, naquele horário, os tons da cúrcuma. A balsa iniciou devagar a travessia do canal. Há muito Samara ansiava por aquele momento: cruzar o espaço e o tempo que separavam a sua substância continental de sua essência insular – um hiato existencial que tinha menos de uma milha e meia de distância e aproximadamente vinte minutos de duração. 

Quis ficar ali de pé, mais perto da proa. A balsa tomou curso firme, contra o vento. Samara manteve a cabeça para frente para que os cabelos não cobrissem o rosto. Seus olhos naturalmente foram de encontro à ilha. “Aquela ilha”, pensou, preenchida de sensações. A visão evocava recordações importantes e um bocado de expectativas. Baixou a cabeça. Lembrou dos momentos passados com seu avô, naquela mesma balsa, vendo a ilha de longe e discutindo sobre seu relevo. Já fazia tempo que não fazia a travessia. Temeu, por um momento, ter perdido tudo aquilo que era seu naquele espaço. Mas seu futuro estaria por ali. E então, como se para retomar a ilha para si, decidiu passar o tempo como fazia com seu avô. Foi então que seus olhos se fixaram na ilha. 

Demorou o olhar sobre a paisagem. Ao centro, aquela figura ígnea que seu avô apelidara de “a sentinela”. O Baepi. Com sua encosta parte raspada fazia Samara pensar que o morro se despia. Sua ravina lhe sugeria os contornos de um ombro – via um gigantesco busto de gnaisse com sua túnica de mata a tiracolo que se estendia a cobrir os morros ao redor. Ao fundo, meio escondido, avistou um pico: Serraria que parecia levantar sua cabeça como quem espia o lado de cá. Na sua frente, os morros – das Tocas, em traços esverdeados desenhando um grande vale à direita até tocar o Redondo, ali, ajustado um pouco atrás de seu irmão, o Morro dos Borges.

Samara seguiu os contornos que partiam das encostas dos Borges ascendendo em um grande paredão a sudeste, formando o Morro do Ramalho. Ao seu lado, impositivo em complexidade e altura, o Morro de São Sebastião, com sua longa crista – “onde a ilha toca mais alto o céu”, nas palavras do avô.  Antecediam sua base as colinas do Piúva e, na linha d’água, o ilhote das Cabras. A linha que provinha alta do Sebastião atingia a orla nas proximidades talvez da Praia Grande e da Ponta do Ribeirão. Mais ao sul, avistou o Morro do Papagaio, com seu topo que lhe parecia um tridente, largo e banguelo. Ao fundo o Morro do Simão, ornamentado pela Pedra do Rodamonte que lembrava a cabeça de uma jubarte emergindo da terra. Os contornos do Simão tocavam, longe ao sul, a linha d’água. Do ponto em que estava no canal, lhe pareceu a Ponta da Sela.

Vencida a metade de seu percurso, a balsa guinou à esquerda para corrigir a deriva. Samara voltou a avistar de relance o Baepi, logo antes de observar a colina sobressaindo desnuda de sua base: seu Mirante. À esquerda, o Morro do Cantagalo, já cansado, metade raspado. Suas bases atacavam a orla com um abraço que ia do Engenho à Vila. Mais atrás, o grande divisor Morro da Siriúba, desenhado em uma serra que provinha alta, dos fundos do Baepi. Mais do que um divisor de águas, para Samara se tratava de um divisor de mundos: um que acabava ali, próximo aos estaleiros da Santa Tereza;  o outro que começava a partir dos Barreiros e se estendia até o fim da estrada na praia do Jabaquara onde, em sua infância, havia passado tardes com sua mãe para “se lambuzar de repelente e se esconder dos turistas”. Samara estreitou então as pálpebras para ver ao fundo o Morro da Pacuíba que lhe parecia vigiar a entrada norte do canal desenhando as linhas finais de uma geometria que, após o último toque ao céu, despencavam até tocar o mar em uma ponta que, às vistas de quem olhava da balsa, seria a da Armação. 

Tal panorama só era possível devido ao céu claro daquela tarde. Não havia nuvens baixas que encobrissem, como um véu, os vales e montanhas – eles estavam, portanto, desvelados. Também a umidade estava baixa, ventava, não havia névoa no canal. O que proporcionava uma visão desimpedida. Não havia vendas – Samara estava, portanto, desvendada. Com isso, naquela tarde, o desvelar e o desvendar se encontravam e operavam uníssonos. A sensível conjugação da nitidez e da clareza, do objeto livre e do observador desimpedido. Sem lastros nos olhos, Samara elevou-os para avistar uma larga parada de altocumulus que desfilava no firmamento ocupando três quartos da cúpula. Isso lhe dava, de alguma maneira, a ideia de um teto no infinito azul. Ela sabia que aquelas nuvens anunciavam a mudança de tempo que já se avizinhava, talvez a dois dias dali.  

A grande balsa continuou sua travessia, ora respondendo às ondulações ajustando-se no plano líquido, ora deslizando com suavidade – o que lhe rendia um pouco mais de velocidade. Já havia alcançado dois terços do percurso. Mas para Samara o tempo parecia não passar, causando-lhe uma certa perturbação, fazendo brotar uma ansiedade no peito. Ao manter o curso avante, a balsa atravessava as distâncias do espaço e do tempo. Um espaço chamado Canal de São Sebastião. Um tempo sem nome, naquela tarde aparentemente dividido em três partes: o que ficava para trás da balsa, com a espuma das ondas, a se apagar; o que se circunscrevia à existência, volição e ação e que poderia ser operado naquele momento; e o que estava adiante da proa, ainda intocado e, sobretudo, desconhecido. 

Samara se indagou o que seria aquele tempo futuro, incerteza que lhe trazia insegurança. Quis rever sua decisão. Encontraria seu lugar entre aqueles morros? Seus velhos amigos, seus novos amigos? Encontraria, enfim, um amor? Encontraria, sobretudo, o que mais buscava – a si mesma? Tais encontros levariam tempo. Um tempo inexorável que, aparentemente desprovido de existência inerente, era inexplicavelmente atuante e definidor das circunstâncias de sua vida. O tempo carregava em si seu próprio horizonte insondável,  inócuo à sua própria perpetuação. Perpetuava-se incondicionalmente. Refletiu que, nessa sua imensurável extensão, nunca o tempo teve de se dizer. Era em si, portador de todas as interpretações. De si, inquestionável condutor. Esta reflexão levou Samara a uma importante decisão: naquele espaço a frente e naquele tempo futuro encontraria sua essência. A partir daquele momento, deixaria para trás sua substância desgastada.

E o tempo, sem precisar se dizer ou se explicar, sem ser importunado ou interrompido, passou naquela tarde de outono. A balsa, que há pouco deixara para trás todo um Brasil, enfim atracava, após uma manobra um pouco tensa para os tripulantes. Os marinheiros ainda discutiam. A grande carcaça, rangendo metálica, ainda se ajustava à plataforma, quando um deles baixou a grande régua de aço que fez com que os pedestres se precipitassem a desembarcar. 

O relógio marcava três e vinte e quatro. Samara, arrastando sua enorme mala, apressou-se junto aos pedestres e bicicletas para livrar a plataforma. Estava feliz, mas um tanto apreensiva. Naquela tarde voltava para Ilhabela, afinal. Postou-se então na calçada próxima à praça. Sem querer demonstrar, olhou em volta. Disfarçou ajeitando seus cabelos, pois Samara havia percebido que ninguém viria buscá-la.

Comentários

Postagens mais visitadas