O milagre de Previtário
Ilhabela, um dia do ano 24. Um tal de Previtário criou uma confusão. O sol brotou gordo, num arregaçar lento, por detrás do vale entre a Toca e o Redondo. Ao que parecia tudo ia bem. O mar estava lá. O canal respirava a maré que despia pedras e planos. O sujeito surgiu mesmo dali, brotando da areia da praia perto da balsa. Emergiu da farinha de quartzo. Deu um passo de ameba e foi parar lá no Perequê, o fígado da ilha. Na esquina do mercado tomou lugar. E pela Divina Providência todos viram o que não deveria estar lá. E eram todos rostos de uma sociedade insular, esperançosos como sempre e como sempre mareados no olhar. Aqueles que viram o tal do Previtário chorar uma ópera recitando Dante jamais poderiam imaginar o que aconteceria depois. As pessoas gritaram de horror ao ver o homem, de repente, virar uma estátua. Mas não uma qualquer, era uma estátua de metal. Um espectro feito de retalhos reluzentes e solda que olhava para o zênite de braços abertos, sua posição original. A multidão parou para ver. O trânsito estancou. Muitos rezavam. O prefeito logo chegou, depois a polícia. Também veio o padre e o ladrão. Outros deram de beber para entender. Um poeta se pôs a escrever, uma jovem a fotografar. Uns capangas de um empresário importante tentaram arrancar da calçada o bastião. Nada deu em adiantar. Uma baita confusão. O troço tinha vindo para ficar. Chamaram o serralheiro, mas ele era convicto demais para tentar. Depois um pedreiro, mas ficou com medo ao bater o cinzel e ver o metal sangrar. Vendo a cena chamaram o médico, mas ele nem quis olhar. Chamaram então o açougueiro, mas ele disse que ferro não sabia cortar. Algumas senhoras já colocavam flores aos pés da estátua. Se aquilo não era coisa de santo — diziam —, que santo diria que não? Nem diria tal o santo Papa, se já não dissesse o contrário o pastor que logo sabendo do causo, ajoelhado, deu louvor. Era um milagre desses, de cidade pequena. Mas a verdade é que ninguém sabia se era um milagre de homem abençoado ou se era coisa do Peste-Cão. Fato é que ficou ali incrustado no chão. E por trazer mais turistas virou atração. Resolveu-se cortar uma faixa para celebrar. Teve festa de inauguração. A fila da balsa lotou. Também veio um bando de gente a pé com o cooler na mão. Fizesse chuva ou sol, tudo se mantinha igual. Aqui um pensamento elaborado, ali uma conversa superficial. Já era assim, normal. Coisas de ilha. Diziam que o homem por virar uma estátua de metal era santo, que traria tempos bons e para isso se rezava todo dia no mesmo horário. Tudo ao contrário. Pobres coitados mal sabiam que, naquele dia, era o “Inferno” o que tinha recitado o profeta Previtário.
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