Estudo 22 - Da desconstrução do imaginário dito poético (fase 1)

Em minhas análises pude identificar uma presença contundente na poética em que me inscrevera nos últimos anos: elementos do espaço. Saltavam, em diversas fases, a descrição de “entes” geológicos, meteorológicos, hidrológicos e astronômicos. Ao que pude perceber, eram padrões bastante antigos e que mantinham a mesma “forma”, design, estética, para tanto os classifiquei como “padrões fossilizados”, igualmente por terem sobrevivido por tanto tempo. Essa relação poética com o espaço também apresentava os tais “padrões estruturantes”, pois definiam como eu exercia uma suposta poética que era evidenciada a partir de meu imaginário interpretativo da realidade - que seja sempre, diga-se de passagem, a expressão artística um mecanismo de operação paralela da realidade, assim como tantos outros convencionais, mas que parte, sobretudo, de uma pulsão utópica. Esse imaginário interpretativo que “coletava” esses “geo-entes” os acumulava, memorizava nomes e os organizava para o uso deliberado na perspectiva da ação poética. Essas figuras do espaço se diferiam dos outros objetos da existência por serem não apenas substância para o ato poético, mas sobretudo orientadores tanto da visão do mundo e da realidade - que ja é por "natureza" orientadora das ações - como na tendência da perspectiva em si, tanto nos atos cotidianos quanto nas atos “paralelos”. Ou seja, montanhas, vales, ventos e estrelas não eram só o objeto da poética, eram geradores autônomos da própria poética tendenciada que, ao atender às demandas emocionais do autor, definiam a estética da peça. Esses entes eram em si objeto e, ao mesmo tempo, direcionadores do método estético: promoviam uma “territorialização” da poética íntima e que servia, em última análise, como uma ação libertária. Pois, permitia, sem medidas, a influência do espaço para modelagem e inspiração dos atos paralelos, e com isso, tomando para si o espaço o qual se referia. E ao transmitir os resultados dessas impressões organizadas em poema, fazia do ato poético um ato político. Não em propor elucubrações sobre a dinâmica das relações sociais, mas em trazer à tona a relação e influência desses elementos na perspectiva de uma poética do espaço. Era como se, pelo poema, se quisesse provocar uma alternativa de visão, chamar atenção a esses entes que, mesmo que por vezes esquecidos, eram moduladores da realidade comum. Parecia haver uma urgência que merecia um tratamento. Uma urgência íntima que não tinha limites. Tratava-se de “dormir como um basalto”, “beber areia”, visitar “obumbrados hadais”, “acampar em Marte”, ter a “maré de meu sangue” influenciada pela lua. Trazia rios, ventos, o mar, e toda lava que eu continha em minhas veias para o poema. Eu publicava o cosmos que enxergava. Era uma condição estética da minha escrita. A minha perspectiva era inevitavelmente geográfica. Minha ação nos territórios do imaginário poético era implacavelmente cosmogônica.

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